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O cérebro e os sexos

A Ciência comprova (...) O cérebro deles e delas é diferente

10
Jul

A Ciência comprova o que o senso comum já sabia. O cérebro deles e delas é diferente em termos de funcionamento, tamanho e talentos.

Ele olha para o carro, volta-se para a vaga que pretende ocupar na avenida de tráfego intenso. Faz um cálculo em milésimos de segundo e se atira no cruzamento para continuar seu percurso na mais santa paz. Não só deu tempo, como não há nenhuma gotinha de suor nas faces e as mãos continuam firmes no volante. Em compensação, ela, a mulher que ocupa o banco do passageiro, está de olhos fechados, rezando para o santo das causas urgentes, ao mesmo tempo em que liga para a amiga para tentar se distrair. A explicação para a reação dos dois está no cérebro. Na média, homens e mulheres têm, sim, cérebros diferentes.

“A resposta para isso pode estar em um evento chamado migração, que ocorre durante o neurodesenvolvimento, e determina a distribuição de células nervosas pelo cérebro. Esse processo sofre influência da testosterona. No princípio os dois cérebros são iguais, mas depois a progesterona da mãe com a progesterona da filha promove um tipo de distribuição de células, enquanto a testosterona do filho determina outro tipo de distribuição”, explica o psicólogo Naim Akel Filho, coordenador da Especialização em Neurociência da Pontifícia Universidade Católica do Paraná e do Grupo de Estudos em Neurociência da instituição. Isso definiria, por exemplo, algumas diferenças sutis de organização e estruturação. Sem esquecer, é claro, que nessa conta entram ambiente e educação, que ajudam a “moldar” as tendências comportamentais. “Ou seja, meninos brincam de luta não só porque os amiguinhos ensinam, mas porque há uma natural tendência à agressividade. E meninas brincam de bonecas pelo mesmo motivo. Elas têm a inclinação para cuidar dos outros.
É só lembrar do tempo das cavernas.”


Os dois cérebros

Cérebros femininos

- Zilda Arns – A médica sanitarista trabalhou com questões absolutamente femininas, como o cuidado com o outro e a educação
- Hillary Clinton – A secretária de estado dos EUA atua na diplomacia do seu país
- Frida Khalo – Extremamente feminina, a pintora mexicana dá vazão aos seus dramas por intermédio da arte
- Simone de Beauvoir – A escritora promoveu a revolução feminista por meio da palavra escrita
- John Lennon – O cantor e outros artistas trabalham com questões femininas, ao deixar fluir as emoções e a linguagem artística

Cérebros masculinos

- Ghandi – O líder pacifista promoveu uma revolução por meio da não violência, o que exigiu dele poder de persuasão e controle das emoções
- Adolf Hitler – Dificilmente uma mulher teria características estrategistas e violentas como as do ditador
- Margareth Thatcher – A ex-premier britânica ganhou o apelido de “dama de ferro” por sua atuação tipicamente masculina diante do poder
- Albert Einstein – O físico alemão é até hoje um exemplo de genialidade racional, cartesiana

Outra diferença é que no córtex pré-frontal, região que fica atrás da testa e controla as emoções, a concentração de serotonina é menor no cérebro feminino, o que indicaria o melhor domínio das emoções e do humor por parte dos homens. “Isso não quer dizer que uma mulher não consiga controlar os sentimentos. Ela consegue, mas, muito provavelmente terá de fazer mais esforço do que um homem que tem essa ‘programação’. Assim como é possível ver um homem fazendo várias coisas ao mesmo tempo, mas ele terá de se aplicar muito mais que uma mulher para dividir a atenção entre as várias tarefas”, diz Naim Akel.

As mulheres, no entanto, têm maior concentração de células no hipocampo (responsável pela memória). “Daí você pode concluir que aquela brincadeira de que uma mulher nunca vai esquecer uma traição é a mais pura verdade”, brinca o psicólogo. E o que dizer das datas (o primeiro encontro, o primeiro beijo, aniversário de casamento)?

Ele ainda registra outra importante diferença relacionada à linguagem. “A região do cérebro responsável pela comunicação fica no hemisfério esquerdo, em homens e mulheres. No caso de um acidente, se esta área for afetada, os homens perdem a capacidade de comunicação, mas no cérebro feminino ocorre uma transferência da função para outra área saudável”, explica.

As amígdalas – não as da garganta, mas uma glândula que fica no meio do cérebro – são muito maiores nelas do que neles. A diferença no tamanho do chamado centro do medo explicaria, por exemplo, porque as mulheres são mais cuidadosas, se submetem –até inconscientemente –a situações de risco desnecessárias. As proporções das amígdalas, no entanto, são opostas as do cérebro – muito maior neles do que nelas.

Mas, antes que alguém levante a polêmica de serem os homens, por esta razão, mais inteligentes, a neurologista Márcia Lorena Chaves, do Departamento de Neurologia Cognitiva e do Envelhecimento da Academia Brasileira de Neurologia, explica que a diferença de tamanho no cérebro está ligada à complexidade corporal e não à intelectual. “Isso era um pensamento da primeira metade do século 19. Depois disso, toda a evolução e a revolução dos estudos e exames não conseguiu comprovar essa teoria simplista. O que se sabe é que os cérebros são diferentes, que os homens são melhores, em média, nas questões iso-espaciais e as mulheres nas tarefas de linguagem e diplomacia, entre outras especificidades. Mas hoje já se sabe que, para uma pessoa ter sucesso, ela precisa tirar o máximo de proveito dessas duas habilidades”, comenta. Organicamente, a discussão também se desfaz segundo o psicólogo: “Homens têm cérebro maior e mais neurônios, mas as mulheres têm uma rede mais rica de ligações. É ela que otimiza e dá competências à estrutura”, explica ele.

Revoluções por minuto

O cérebro é imaturo nos primeiros anos, vive o seu auge no início da vida adulta e entra em decadência no envelhecimento. Certo? Seria, caso não tivesse sido elaborado um conceito que anda revolucionando o curso normal da vida e revertendo os efeitos do tempo – a hipótese da plasticidade. A explicação é aparentemente simples: “Um aprendizado qualquer, que resulta em mudança comportamental, provoca uma alteração cerebral. Ou seja, os neurônios criam conexões entre si para se adaptar à mudança”, explica o neuropediatra Luiz Celso do Amaral, do Instituto de Neurologia de Curitiba.

Se com o passar dos anos as pessoas vão perdendo neurônios, as ligações (sinapses) entre eles se tornam mais eficientes. “Temos realmente neurônios demais num certo período e não precisamos de todos eles para manter nossas funções cerebrais. Perdemos células, mas os grupos se tornam mais específicos e mais eficazes”, comenta Márcia Lorena Chaves, do Departamento Científico de Neurologia Cognitiva e do Envelhecimento da Academia Brasileira de Neurologia.

A maior parte das transformações cerebrais acontece mesmo no início da vida. Por causa disso, os três últimos meses de gestação e os dois primeiros anos de vida demonstram um rápido crescimento cerebral e é neste período que mais da metade do peso adulto do cérebro é incorporado. “Entre o sétimo mês de gestação e o primeiro aniversário da criança, o cérebro aumenta seu peso em 1,7 g por dia, ou mais de um miligrama por minuto”, comenta o neuropediatra. Já no nascimento, há grande atividade no centro do cérebro, que controla estados de consciência, reflexos inatos e funções biológicas vitais como digestão e respiração; e no córtex, mais diretamente envolvido nos movimentos corporais voluntários, percepção, aprendizagem e produção de linguagem. As primeiras áreas do cérebro a amadurecer são as áreas que controlam as atividades motoras simples e as áreas sensoriais.

À medida que as células proliferam e amadurecem, segundo Amaral, ocorre a produção de uma substância gordurosa que cobre os neurônios e atua como isolante, o que aumenta a velocidade de transmissão dos impulsos neuronais, permitindo que o cérebro se comunique de forma mais eficiente. A criança, então, torna-se gradualmente capaz de aumentar atividades motoras complexas como rolar e correr. Mas algumas áreas não estarão cobertas até meados da adolescência ou início da vida adulta. Um exemplo é o córtex frontal, parte do cérebro responsável pela concentração, que permanece incompleto até a puberdade – o que explica em parte a dificuldade de concentração em crianças. Na adolescência, as alterações orgânicas e as mudanças hormonais também impactam o cérebro e suas funções.

Adultos e idosos

O cérebro atinge seu auge na vida adulta, por volta dos 20 e poucos anos. O ser humano estaria com suas funções cerebrais plenas e, a partir daí, os estereótipos culturais sugerem uma mudança para pior. Entretanto, novos estudos sobre o cérebro descobriram certos tipos de ganhos bastante tardios da vida, como os relacionados à idade no campo da sabedoria. Entre eles, o conhecimento geral específico sobre as condições de vida e suas variações, criação de estratégias de julgamento e aconselhamento, contextualização do ciclo vital, conhecimento da indeterminação e imprevisibilidade relativas da vida e as formas de manejá-las. “Isso quer dizer que o cérebro não para nunca. Ele sempre terá capacidade de aprender, mesmo no caso de perdas cerebrais importantes. O corpo e a mente são plenamente adaptáveis”, comenta a neurologista gaúcha.

Para o neuropediatra Luiz Celso do Amaral, tudo indica que o desuso, e não o declínio, possa ser o responsável pelas deficiências no desempenho intelectual que não esteja relacionado à velocidade de processamento. “As pessoas experimentam déficit de memória com a idade avançada, mesmo que tenham tido excelente educação e disponham de boas habilidades intelectuais. A idade não parece diminuir o conhecimento geral e informações pessoais sobre eventos que ocorreram muito tempo atrás. Entretanto, a idade afeta processos que possibilitam que novas informações sejam organizadas e recuperadas de forma eficaz”, diz ele.

Gazeta do Povo - Publicado em 14/11/2010 | LARISSA JEDYN

   
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